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Conclave sem santidade



Por: Editor

CONCLAVE SEM SANTIDADE

 

Autor: Carlos Barros

Advogado

 

Todo impecavelmente virtuoso é essencialmente um suspeito.

Foi com esse pensamento que o cardeal islandês deu o voto, dobrando o papel com dedos trêmulos de quem sela um destino — ou, talvez, de quem tenta não manchá-lo na origem.

Ali, enquanto a fumaça ainda descansava no silêncio da chaminé, discutia-se quem seria o novo pontífice.

Nas entrelinhas, porém, discutia-se muito mais: quem, sobretudo, não poderia sê-lo.

E se, por absurdo, fizéssemos um conclave no nosso círculo social? Os que se postam diariamente como virtuosos seriam elevados ao pontifício?

Há pessoas que se empenham tanto em parecer boas que convencem — ou despertam desconfiança em quem já viveu o suficiente para ver profetas caírem, tanto na vertical quanto na horizontal.

A diferença entre a virtude vivida e a exibida costuma ser sutil na forma — e, às vezes, nem tanto —, mas abissal na intenção.

Há os que arquitetam gestos bondosos como quem monta vitrine: tudo exposto, nada tocável — “Favor não encostar”.

A santidade, hoje, não raramente depende mais do alcance das postagens na paróquia digital do que do alcance dos gestos reais, que ninguém fotografa.

Os que não se anunciam talvez não disputem o trono — mas sustentam, em silêncio, o que o mantém de pé.

No fim, a fumaça sobe — mas, às vezes, apenas para encobrir o que não se ousa dizer em voz alta.