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Condomínio Brasil



Por: Editor

CONDOMÍNIO BRASIL

 

Autor: Carlos Barros
Advogado

 

Localizado na Rua 7 de Setembro, via que une os nobres bairros de Orleans e de Bragança, o Condomínio Brasil sempre foi conhecido pelo clima temperamental e pela vivacidade.

Quanto ao clima, pudera: de um lado, é abraçado pelo mar de água quente; de outro, varrido pela friagem úmida que desce da serra — coisa só vista ali, no município de Santa Independência.

Com relação à vivacidade, bem… descrever um condomínio que pulsa como um organismo inquieto exige muito mais que um punhado de palavras — e alguma disposição para discutir o óbvio.

Lá, por exemplo, há quem trate as roseiras como se o jardim fosse herança de família e estacione na vaga alheia como quem estende canga em praia lotada.

Também tem quem transforme a quadra em um lava jato particular, garantindo, entre um enxágue e outro, que é tudo “para o bem da coletividade” — enquanto a água escorre livre pelo ralo, sobra espuma e lama.

O entra e sai de administradores é um espetáculo à parte. Poucos completam o mandato sem sair chamuscados. Alguns nem chegam ao meio — e a destituição, quando vem, acende apostas antes mesmo de apagarem as luzes.

Nos últimos anos, os pretendentes ao cargo revezam-se entre prometer mudanças e devolver as velhas rotinas com nova pintura.

Um promete grandes transformações, mas passa verniz nas mesmas portas, cercado de devotos que guardam suas atas como santinhos e disputam quem melhor recita seus feitos — e os tropeços do rival —, enquanto a infiltração no teto segue crescendo fora do enquadramento das fotos.

Outro promete ordem, mas só repagina o salão, seguido por fiéis que o saúdam como num ritual de fé — distraídos pelo novo arranjo das mesas, sem notar que o chão continua cedendo sob os pés.

A portaria, ponto oficial para conversas truncadas e resmungos, funciona como caixa de ressonância de intrigas: ali, o porteiro alimenta boatos com a mesma destreza com que recolhe encomendas, e sabe mais da vida dos moradores do que das visitas que entram e saem de sua casa enquanto ele trabalha — sem sequer desconfiar.

O mural do hall social ostenta avisos com a solenidade de decretos — mas tão ignorados quanto lei que não pega.

E, embora o valor do condomínio seja muito alto — sobretudo considerando as taxas extras que espetam como farpa encravada —, muitos condôminos ainda acreditam que, um dia, o Condomínio Brasil será exemplo para os imponentes prédios no entorno daqueles opulentos bairros.

Por ora, no residencial, o único serviço que continua funcionando sem grande custo ou transtornos é o prestado por Dona Esperança, velha moradora que, na área de lazer, lê pelas mãos o futuro dos condôminos que aguardam a vez no dominó — pedindo em troca só um latão de cerveja.