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Muito prazer, de novo



Por: Editor

MUITO PRAZER, DE NOVO

 

Autor: Carlos Barros

Advogado

 

— Fala, Orlando! Seja bem-vindo!

— Grande Betão! Feliz aniversário!

— Obrigado, meu velho! Orlando, esse aqui é Silvano, um amigo do trabalho.

— Ôpa, Silvano. Prazer.

— Todo meu, Orlando.

Era a terceira vez que Orlando e Silvano eram apresentados — e, mais uma vez, encenaram a curiosa esquete das interações fugazes: fingiram nunca terem se visto na vida.

— Amigos, me deem licença para eu receber o vizinho. Mas fiquem à vontade: a casa é de vocês.

Em seguida, Orlando e Silvano tatearam um mote, assuntaram sobre o calor e a alta do tomate — e, após entornarem os três primeiros chopes, engataram causos e risos até serem gentilmente varridos da festa.

Experiência arquivada, vida que segue.

E seguiram.

Tempos depois, chegou o momento de celebrar mais um ano vencido e esperançar os melhores sentimentos:

— Oh, Orlando! Que bom que você veio! Feliz Ano Novo!

— Feliz Ano Novo, amigo Juca! Não tinha chance de eu faltar a uma festa sua!

— Ah, que coisa boa! Orlando, esse aqui é Silvano, meu cunhado.

— Tudo bem, Silvano? Prazer.

— O prazer é meu, Orlando.

De lado a lado, rolou aquele olharzinho cúmplice de “eu sei que você sabe que eu sei”.

“Digo que nos conhecemos ou evito parecer forçar intimidade? Finjo não conhecer ou corro o risco da lembrança unilateral?” — questionaram-se, numa fração de segundos, Orlando e Silvano.

Aquela era a quarta vez que eles eram apresentados — mas, como atores veteranos, cumpriram novamente o script.

Na sequência, tentaram prever se choveria ou não, comentaram que o ano voou — e, após três taças de champanhe, cantarolaram “adeus ano velho” e se abraçaram ao som dos fogos, engatando causos e risos até o amanhecer.

Concluídas todas as simpatias da virada — místicas e sociais —, foram-se.

Enfim, seguiram à espera do próximo “muito prazer”.

Como se fingir fosse mais fácil do que lembrar.

Como se a memória fosse um peso que a festa não comporta.