Por: Editor
Autor: Carlos Barros
Advogado
“Um indivíduo é indispensável apenas na própria morte.”
Por dias, ele ruminou essa máxima esfíngica, gravada a cinzel em sua mente pelo homem que o destronara.
Jamais fora confrontado durante seu longo reinado na empresa; não concebia ter sido deposto com a articulação de uma única frase — cortante e de árida clareza.
“Ele quis dizer que, depois de minha morte, sentirão minha falta? Ou que eu sou insubstituível apenas para morrer?”, indagava-se, sem compreender se a sentença era magnânima ou sarcástica.
Enxergando-se como um faraó, nutria contra o algoz ódios primevos, profundos como sepulcros.
Decidiu, então, que só o sangue poderia aplacar o que lhe roía o peito.
Naquela manhã, o cortejo fúnebre mascarava-se de rotina corporativa: às 8h30, chegou à empresa, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador, subiu ao 20º andar e percorreu o corredor como quem rumava para o submundo.
À cintura, onde outrora pendia o instrumento mundano de comunicação, trazia agora a ferramenta do sacrifício alheio — oculta no coldre da obstinação funérea.
Entrou na sala. O homem estava lá — sozinho, sentado à mesa, diante da tela do computador.
Com três passos, aproximou-se do déspota, certo de que o gesto final lhe arrancaria da mente a tormentosa máxima.
Mas o momento de tornar-se insubstituível se cumpriu: debaixo da mesa, ergueu-se a mão armada, súbita, inexorável.
O faraó deposto ainda tentou reagir, mas era como se faixas de linho já lhe envolvessem os membros — viu-se reduzido a múmia antes mesmo de cerrar o punho.
O cano pressionou-lhe a boca, calando-lhe a voz — até que a do outro rompeu o silêncio já tumular:
— Conhecendo bem seus desvarios, você acha que eu não estaria atento aos seus passos?
Como se assistisse ao próprio embalsamento, sentiu o sangue escapar-lhe do corpo.
— Você é tão incompetente que depende de mim até para me matar.
Contraiu os lábios como quem sente o gosto de formol.
— Pior: até para morrer você precisa de mim.
O estampido selou o destino como pedra que fecha sarcófago, abafando para sempre a memória de seu reinado.