Por: Editor
PROTOCOLO DE DOMINGO
Autor: Carlos Barros
Advogado
Acordei cedo. Deveria ser por engano, mas não foi. Domingo é dia de dormir até o corpo pedir café — ou perdão. No meu caso, porém, eu que peço perdão ao corpo — minha insônia não dá trégua nem aos domingos.
Levantei com a disposição de quem levou um choque de pilha palito.
Olhei para o tênis, ele me olhou de volta — e ambos fingimos não nos conhecer. Pensei em correr, corri o feed.
Pensei em ler, desisti, e antes mesmo de largar o smartphone — ao rolar a colorida tela, vi um card preto e branco com a foto de um simpático velhinho e um texto telegráfico:
“Luis Fernando Veríssimo
1936 – 2025”
Domingo é esse limbo em que o plano vira talvez, e o talvez termina em “amanhã eu começo” — pensei.
Diante desse pensamento, também pensei o que pensaria (pior, o que diria) o Analista de Bagé.
Mistério… Mistério que talvez só o detetive Ed Mort ousaria desvendar — de um jeito ou de outro.
Deitei de novo. A consciência tentou protestar, mas tropeçou na coberta.
Como todo cidadão exemplar diante de um domingo com tanta vontade própria, segui o protocolo — nesses casos, talvez só a Velhinha de Taubaté acreditaria na produtividade dominical.
Mas voltei a pensar — e, pensando bem, o Analista de Bagé continua pensando e dizendo, Ed Mort segue desvendando, e a Velhinha de Taubaté permanece acreditando, pois a vasta obra do grande Veríssimo ficou.
E que bom, ao menos quanto a ela, que eu não disse “amanhã eu começo”.